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02/07/1999
Identificado rato transmissor do hantavírus
Técnicos do Adolfo Lutz apontam o rato de grama como causador de doença no interior de São Paulo
LUIZ CARLOS LOPES
SANTA MERCEDES - O rato silvestre da espécie Bolomys lasiurus, ou simplesmente rato da grama ou rato do capim, um roedor de tamanho médio, cor castanha e pelagem volumosa, foi identificado pelos biólogos do Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, como o agente transmissor do hantavírus que já matou duas pessoas este ano e outras duas em 1998, na região da Alta Paulista. A informação é do pesquisador Luiz Eloy Pereira, que passou as duas últimas semanas capturando ratos de diversas espécies nos municípios de Santa Mercedes e Caiabu, onde foram registrados os dois últimos casos da doença, no início de junho.
Com base nas centenas de capturas realizadas no oeste e noroeste do Estado, desde que os primeiros casos surgiram no primeiro semestre de 98, em Tupi Paulista e Nova Guataporanga, a menos de 30 quilômetros do Rio Paraná, a equipe técnica concluiu que o rato da grama responde por 24% da população de roedores da região.
Entre 20% e 22% das amostras de sangue e vísceras dessa espécie submetidas a testes de laboratório apresentaram anticorpo para hantavírus. Nenhuma outra espécie apresentou resultado soropositivo. O índice é muito elevado, admitem os biólogos Akemi Suzuki e Renato Pereira de Souza, que, entretanto, afastam o risco de epidemia, porque os animais estão em áreas rurais, com reduzida presença de seres humanos.
Segundo Pereira, nos Estados Unidos, onde foi registrada uma epidemia em 1993, com 213 pessoas contaminadas e 60% de mortes, a incidência do vírus nos roedores pesquisados chegou a 30%. Entretanto, a doença só se manifestou com intensidade em razão da seca, que provocou falta de alimentos no campo e os animais invadiram uma cidade. "No ano seguinte, a situação se normalizou", disse.
Riscos - Pelo menos 30% das 320 armadilhas montadas na zona rural de Santa Mercedes e Caiabu resultaram na captura de ratos silvestres e domésticos, o que, segundo o biólogo Luiz Eloy Pereira, revela uma alta incidência de roedores em toda zona rural da região, aumentando o risco de novos casos de contaminação.
Afastando a possibilidade de epidemia, Luiz Eloy Pereira afirma que o risco de contaminação cresce nesta época do ano, em conseqüência do aumento populacional de roedores. Ele informou que, entre os animais capturados, muitos machos estavam em fase reprodutiva, assim como grande parte das fêmeas estava prenhe.
Os trabalhos de captura foram concentrados inicialmente na área de cultivo de cana de uma destilaria de álcool de Caiabu, região de Presidente Prudente, onde possivelmente ocorreu a contaminação do trabalhador Venderlei Pereira de Castro, de 17 anos, residente em Lucélia, na Alta Paulista, que morreu no dia 1º de junho.
Depois, os técnicos deslocaram-se para Santa Mercedes, atuando na zona rural de Terra Nova do Oeste, e em São João do Pau D"Alho, locais onde o lavrador Roberto Carlos de Oliveira, de 19 anos, que morreu no dia 6 de junho, trabalhou na colheita de sementes de capim brachiária.
Os técnicos informaram, ainda, que um terceiro caso, de Valdemir Lourenço dos Santos, de 19 anos - que trabalhava com Roberto Oliveira na colheita de capim brachiária e foi internado com sintomas da doença, sendo depois liberado-, apresentou resultado negativo nos exames. Apesar disso, foi feita nova coleta de sangue para outra análise.
A bióloga Akemi Suzuki, chefe da seção de vírus transmitidos por artrópodos do Instituto Adolfo Lutz, lembra que o hantavírus é transmitido pela urina e fezes do rato e a infecção no homem ocorre pelas vias respiratórias superiores (olhos, nariz e boca) ou pelo contato direto com o sangue. O vírus permanece vivo durante cerca de 24 horas e espalha-se com a poeira.
Segundo a técnica, a doença pode ficar incubada no corpo humano entre uma e seis semanas, mas quando se manifesta é fulminante e geralmente fatal. O paciente pode morrer em, no máximo, de três dias.
Os poucos casos conhecidos de pessoas infectadas que conseguiram sobreviver, revelaram que aqueles pacientes desenvolveram naturalmente anticorpos resistentes ao vírus. Não existem medicamentos para combater a enfermidade.
Casos - O biólogo Renato Pereira de Souza lembra que, no ano passado, em São Paulo, foram registrados dois casos da doença em Guariba, um em Cotia, um em Tupi Paulista e um em Nova Guataporanga. Em Minas Gerais ocorreram dois casos e no Rio Grande do Sul, quatro.
No mundo, segundo o biólogo, em 1998 foram registrados dois casos no Uruguai e um na Argentina. De acordo com o técnico, recentemente, durante a guerra da Iugoslávia, vinte soltados que cavavam uma trincheira em Kosovo foram contaminados e dois morreram.
Segundo Souza, existem diferenças entre o hantavírus das Américas e o da Europa e Ásia. No primeiro, a infecção ocorre por síndrome pulmonar, com média de letalidade de 60%, enquanto no segundo, a manifestação é por febre hemorrágica com síndrome renal e letalidade entre 5% e 10%.
A espécie Bolomys lasiurus é a única que consegue desenvolver reação imunológica, mas sem eliminar totalmente os vírus, motivo que a torna o principal agente transmissor da doença.
Fonte: O Estado de São Paulo - São Paulo/SP
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